O barulho das rodas da maca sendo empurrada em nossa direção ficava cada vez mais evidente. Olhei em volta e, por um instante, parecia que todos estavam em outra dimensão.
Todos com olhar fixo numa porta que, em instantes, se abriria. Ao meu lado uma mãe. Do outro lado da porta, uma filha. Uma escolha e uma atitude mudaram o destino de ambas. Uma dependia da outra, sempre foi assim.
A ambulância chegou, em silêncio. A porta abriu-se e a mulher que passou por mim não era a mesma. Trocamos um olhar, apenas, um olhar. Tentava encontrar um sinal que revelasse o motivo daquela tentativa de suicídio. Mas a diligência passou, e foi-se. A imagem que guardava não ficou mais bela, nem sequer mais feia. Se ao menos eu conseguisse me lembrar daquele rosto antes de uma bala atravessar seu crânio...
De repente, parecia que todos sentiam necessidade de demonstrar compaixão. Despedi-me da mãe com um abraço mudo.
A falta de movimentos, expressões, reação. Um conjunto a ser analisado. Uma reflexão a ser feita. Uma cena a observar. A bela mulher, que agora parecia uma menina. Em breve estaria de volta à posição fetal, porém, nos braços da mãe!
terça-feira, 5 de agosto de 2008
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