Vivemos numa sociedade com tantas coisas erradas que não dá mais para identificar onde está o erro, onde ele começou ou aonde vai acabar. Perdeu-se o controle e, infelizmente, nós temos que aprender a conviver com isso. A grande batalha, na verdade, nós temos que travar dentro da gente, pois vivemos nesse mundo e não existe um lugar para onde possamos correr.
Um mundo que impõe regras e leis que não são cumpridas, um mundo cheio de violência, tirania, abuso da força, opressão, sem falar nos sete pecados capitais: avareza, ira, luxúria, gula, inveja, preguiça, vaidade...
Assim definimos: violência é um ato contrário à justiça ou à razão; justiça é a conformidade com o direito, o ato de dar a cada um o que por direito lhe pertence; razão é o modo de pensar próprio ao homem, a faculdade de raciocinar ou de estabelecer conceitos e proposições de modo discursivo (não intuitivo) segundo as regras lógicas do raciocínio; raciocínio é bom senso, a idéia justificada; idéia é conceito, juízo, opinião, visão; e o juízo? Juízo é o ato ou capacidade intelectual de julgar.
Julgar? O que está em julgamento realmente? A nossa revolta com os acontecimentos violentos, com a sociedade, com aqueles que tiram de nós o que batalhamos para conseguir, a nossa sensação de impotência quando somos lesados e não podemos fazer nada, quando deitamos confortáveis em nossas camas, colocamos a cabeça no travesseiro e lembramos que na mesma cidade, no mesmo bairro, pessoas vivem em situações completamente diferentes, sem condições mínimas de levar uma vida decente e não podemos fazer nada?
É um bom argumento, quando a revolta vem, pensar no que realmente vale à pena. Podemos ficar irritados, revoltados, com aquele sentimento de justiça engasgado na garganta, mas infelizmente somos impotentes, existem situações em que nada pode ser feito, então, não vamos enlouquecer por isso.
Comprei um som para meu carro, não quis economizar, fui logo comprando o mais caro e melhor, era o que eu queria, o que eu gostei, então, não tive dúvida. Um belo dia, estava fazendo um programa bem “light” com os amigos (no bar Rei do Joelho, comendo joelho de porco e tomando cerveja) num bairro de Campinas que pode ser considerado nobre. Percebi quando um carro estacionou ao lado do meu - e que “carrão” - e também percebi dois homens dentro dele. Um abriu a porta e não o vi descer (mas desceu), depois entrou de volta, foi embora e, com ele, meu som. Na hora até percebi que alguma coisa estava errada, por isso tentei ver a placa do carro quando ele saiu e acreditem, a placa do carro estava dobrada e não consegui identificar as letras e nem os números. Pedi para que meus amigos fossem até meu carro ver se estava tudo bem e eles voltaram dizendo que o vidro estava estourado e o som não estava mais lá. Fiquei “puta”, saí correndo, peguei as chaves e entrei no carro para ir atrás, quando tentei ligar a chave, nada – os fios da bateria estavam cortados. Meu carro foi guinchado até a casa da minha cunhada, tive que ligar para meu irmão e minha mãe pedindo ajuda, chorei demais porque fiquei com muita raiva, liguei para a polícia, queria brigar com o atendente que não me deu atenção, fui ao quarto distrito fazer o B.O e tive que ficar umas duas horas esperando. Enquanto esperava tive bastante tempo para pensar nos meus CDs originais que foram levados (aqueles que só eu gostava), na minha máquina digital que eu tinha tirado do carro antes de sair de casa (não sei nem porque), queria chegar em casa e ligar para meu primo, pois sabia que ele poderia me ajudar - a maioria das famílias tem uma “ovelha negra”. Fiquei pensando também na maneira como fui atendida por telefone e no que o atendente deve ter pensado, como: “essa garota fica chorando no telefone por causa de um som automotivo enquanto as outras linhas tocam com pessoas pedindo socorro porque estão sendo agredidas, porque alguém invadiu suas casas ou tantas outras coisas graves que acontecem diariamente. Quando cansei de pensar e fiquei quieta na cadeira desconfortável, comecei a prestar atenção no que as outras pessoas falavam: um cara contava como levaram sua Hillux e seu celular, mas, não levaram o seu relógio (ele tem uma Hillux com alarme por satélite e arriscou a vida por um relógio), quase levou um tiro (mas continuava com o relógio). Uma senhora contava sobre o roubo do seu carro, que nunca tinha sentido tanto medo como naquele momento que passou com um desconhecido, que não sabia o que podia acontecer e que passou mil coisas ruins pela cabeça dela. Também uma garota com hematomas pelo corpo tinha sido agredida pela ex-namorada de seu atual namorado quando chegava em casa depois de um dia de trabalho, então alguém perguntou: e você, porque está aqui?
Nesse momento meu problema ficou tão pequeno que só consegui responder: ah, nada demais, levaram o som do meu carro.
Mas, era o meu som, foi difícil comprar e eu tinha direito de estar com raiva. Cheguei em casa e liguei para meu primo. Ele me disse que ia fazer alguns contatos e descobrir quem estava roubando naquela área utilizando um Vectra chumbo (era esse o carro que me assaltara), e que descobriria tudo mesmo sem saber a placa. O problema é que teria que acionar algumas pessoas “barra pesada” – então, pensei, será que vale à pena dever favores para pessoas assim por causa de um som? Não! Desisti dessa idéia e me conformei com o fato de ter que comprar um novo.
Sei de uma coisa: o certo não pode virar errado e eu não podia me tornar uma pessoa parecida com eles. Uma pessoa que anda de Vectra roubando um som de carro? É, essa pessoa tem problemas! Não sei porquê ele rouba nem muito menos se essa pessoa tem salvação – e não é problema meu.
Recentemente o Luciano Huck foi roubado, levaram seu relógio, quem não se lembra desse caso? Teve uma repercussão violenta o fato dele ter ficado irritado por terem levado seu relógio de trinta mil reais enquanto ele tem “muito dinheiro”. Isso é hipocrisia. As pessoas têm o direito de se sentirem invadidas, lesadas, humilhadas, independente de sua classe social, cor, religião.
Pesquisadores anunciaram, recentemente, que em breve será possível estudar o cérebro de “infratores” e achei essa uma pesquisa interessante – desde que as pessoas em questão autorizassem o estudo, lembrando que existem maneiras não violentas de fazê-las aceitar. Se não existissem os Direitos Humanos, talvez não existissem também os limites.
Voltando ao raciocínio do início deste artigo, lembrando que raciocínio é a idéia justificada, percebo que, infelizmente, aprenderemos a conviver com o medo se continuarmos buscando apenas ferramentas que nos ajudem a entender. Nessa busca por conhecimento, podemos perder os limites e prejudicar outras pessoas, em nome da ciência, para tentar entender o que estamos fazendo ou onde vamos chegar. É aí que todos se assustam...
Chegamos ao ponto em que não existe nenhum tipo de controle, todos sentem medo... da morte.
A partir daí podemos pensar em diversas coisas como a clonagem de órgãos, clonagem de seres humanos, os limites para a ciência, os valores das pessoas, a alma/espírito. São muitas coisas a serem analisadas de acordo com a vivência, as expectativas e os conhecimentos de cada um.
Então, poderia escrever um livro sobre a violência, um sobre a morte e outro sobre a vida, teria assunto e diversas abordagens, mas acho que todos eles poderiam ter o mesmo fim: se não temos controle sobre a morte, então, para que desperdiçar a vida tendo medo dela?
Ainda bem que existem os direitos humanos... pois se não existissem, talvez não existissem também os limites...
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
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